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terça-feira, 5 de maio de 2009

Com o Vinho na Boca

Com vinho na boca podemos ter muitas sensações. Quase sempre prazerosas; às vezes nem tanto. Mas também podemos ter importantes implicações na saúde oral. É disso que vou me ocupar nesse artigo.

A placa dentária é um filme aderente de bactérias que se forma nos dentes. Ela é o processo inicial da cárie que é quando ocorre a destruição da estrutura do dente. Os três principais agentes dessas lesões são: o Streptococcos mutans, o Actinomyces viscosus e o Lactobacillus. Na China, o Dr. Yue Xiao e colegas, demonstraram que os polifenóis do vinho são capazes de inibi-los. Por isso, as pessoas que costumam bochechar vinho, têm menos cáries dentárias.

A Dioxina causa, entre outros danos, doença periodontal por estimular a produção de Porphyromonas gingivalis. Por ser encontrada principalmente no cigarro e ar poluído ela acomete mais os fumantes e pessoas que costumam respirar pela boca. O Dr. Singh e colegas da Universidade de Toronto, no Canadá, mostraram que o Resveratrol – um polifenol presente em quantidades apreciáveis nos vinhos – inibe este efeito maléfico da Dioxina e sugere o seu uso como agente protetor e terapêutico para esses casos.

Os pigmentos dos vinhos tintos tingem os dentes e comprometem a estética. Existe uma relação direta entre a intensidade de cor do vinho, o tempo de contato e as manchas nos dentes. A boa notícia é que respondem bem às terapias de clareamento.

A erosão dentária é a perda de substância da superfície do dente por processo químico, sem o envolvimento de bactérias. Ela costuma deixar o dente mais sensível. O esmalte do dente dissolve-se em um pH entre 5,0 e 5,7. Os vinhos geralmente têm um pH entre 3,0 e 3,8. Os brancos habitualmente são mais ácidos e, portanto mais corrosivos. Os principais ácidos encontrados no vinho costumam ser o tartárico, o málico e o lático, justo os mais corrosivos. Em menor quantidade encontramos o ácido cítrico, o succínico e o acético, que são menos corrosivos. O dano ao esmalte do dente guarda uma relação direta com o tempo de exposição. É importante quando esse tempo é superior a 120 segundos. A saliva é uma das defesas do organismo contra a erosão dos dentes. A presença demorada de vinho na boca, além de aumentar o tempo de contato com os dentes, inibe a produção de saliva o que favorece ainda mais a erosão. Resinas protetoras e vernizes com flúor protegem da corrosão.

Pode se ver algumas recomendações para se preservar a saúde oral quando se bebe vinho de maneira regular no Box nesta página.

Enólogos e enófilos costumam ter dentes mais fracos e sensíveis (pela erosão do esmalte), porém poucas cáries e doenças periodontais. Esse é mais um dos tantos paradoxos do vinho.

Recomendações para preservar a saúde oral

quando se bebe vinho regularmente

Beber sempre junto com os alimentos

Ficar com o vinho na boca apenas o tempo suficiente para desfrutar o seu buquê

Escovar os dentes após a ingesta, evitando modos e escovas muito abrasivos

Bochechar colutórios alcalinos

Aplicar resinas protetoras e/ou vernizes com flúor

Fonte: Dr. Jairo Monson de Souza Filho, Cardiologista

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O Vinho na Cozinha

Comer acompanhado de uma taça de vinho é saudável, quando não há contra-indicação ao consumo de bebidas alcoólicas. Isso já se sabe faz muito tempo. Mas preparar os alimentos com vinho traz algum benefício para a saúde? Há séculos o vinho é usado nas preparações gastronômicas porque ele enriquece os aromas e sabores de uma comida, dando personalidade, expressão e fineza ao prato. Refere-se também que ele evita que os alimentos grudem na panela – o que é de grande valia em certas ocasiões.

Por tudo isso o vinho é amplamente utilizado em receitas gastronômicas para marinar, em sopas, grãos, carnes, massas e até mesmo em sobremesas e frutas. As possibilidades são muitas, mas é importante usá-lo de maneira adequada, seja branco, tinto, licoroso ou espumante.

Mas esse uso do vinho, além das vantagens gastronômicas, traz algum benefício para a saúde? A Drª. Azlin Mustapha da Universidade de Missouri, mostrou uma interessante pesquisa durante sessão científica do Instituto de Tecnologia de Alimentos, em julho passado, em Chicago. Ela mostrou que o vinho tinto mata a bactéria Helicobacter pylori. Essa bactéria chega ao nosso organismo pela ingestão, principalmente com alimentos e é a principal causa de úlcera péptica, gastrite e até mesmo câncer do estômago.

Ela mostrou também que o vinho tinto mata outras bactérias como a Escherichia coli, Salmonellas, Estafiloccocus, Pneumoccocus entre outros. Essas bactérias são importantes agentes de infecções intestinais, urinárias e respiratórias. A pesquisadora salienta que o vinho eliminou essas bactérias sem atingir as probióticas. Estas são microorganismos do bem, fazem parte da flora normal do tubo digestivo e ajudam na digestão.

É importante salientar que esse estudo foi feito em laboratório, isto é, in vitro. Esses resultados, apesar de empolgarem, nem sempre se reproduzem em seres humanos. Estudos em animais, ou seja, in vivo, estão em andamento, e dentro de pouco tempo teremos os resultados.

Aminas heterocíclicas são formadas pela reação de Maillard durante o processo normal de cozimento. Essa reação ocorre entre aminoácidos e carbohidratos que sofreram ação dos Radicais Livres, na presença de calor. Dela resulta a coloração dourada e muitos dos sabores dos alimentos. Essas aminas são genotóxicas. Isso significa dizer que elas têm uma ação tóxica para os gens – são mutagênicas. Isso pode ser danoso ao organismo e causar de uma série de cânceres.

A Drª. Rosa Busquets e colegas da Faculdade de Química, da Universidade de Barcelona, na Espanha, fizeram um interessante trabalho publicado no Journal of Agricultural and Food Chemistry. Ela comparou peitos de frangos fritos previamente marinados com vinho e não marinados e viu que naqueles havia quase 90% menos aminas heterocíclicas. Os estudos aqui apresentados sugerem que o uso adequado do vinho no preparo dos alimentos, além de enriquecer os aromas e sabores, pode reduzir o risco de doenças e agregar benefícios para a saúde.
Fonte: Dr. Jairo Monson de Souza Filho - Cardiologista.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Vinho e Câncer - com quem está a verdade?



Existem dezenas de pesquisas científicas publicadas sobre esse assunto e elas são conflitantes. Recentemente a imprensa do mundo todo repercutiu a entrevista do presidente do Institut National du Cancer (INCa) da França, Dr. Dominique Maraninchi, a um repórter francês. A ele são atribuídas afirmações como: “o consumo de álcool, especialmente vinho, deve ser desencorajado para todas as pessoas”; “pequenas quantidades de álcool são mais prejudiciais para a saúde”; “não existe uma dose de álcool definida como segura para saúde”. Afirmações como essas ditas por pessoa que ocupa função tão relevante no sistema de saúde de um país desenvolvido é impactante. Entrevista para imprensa leiga tem uma grande exposição, mas não sofre os processos usuais de validação científica. O INCa da França produziu recentemente um documento oficial de 60 páginas intitulado Alcool et risque de cancers. Nesse documento não há nenhuma dessas frases. Nele consta que a incidência de alguns tipos de cânceres tem relação direta com a quantidade de álcool ingerida e não foi encontrada diferença significativa entre as bebidas. Refere ainda que por isso o consumo de bebidas alcoólicas deve ser desencorajado e também por não existirem estudos consistentes que comprovem a redução do risco de doenças cardiovasculares pelo uso de álcool. Utiliza como referência para essa afirmação umestudo publicado em 1996. As centenas de estudos com alto nível de evidência científica produzidas desde então e que demonstram a proteção cardiovascular pelo álcool e em especial pelo vinho foram desconsiderados. Também na bibliografia desse documento não constam dezenas de estudos que encontraram efeito protetor do vinho em relação às neoplasias. Essas são as principais críticas que se fazem a esse documento.

Muitos cientistas que têm como área de interesse os efeitos do álcool na saúde se manifestaram sobre esta entrevista no mundo todo. Para citar alguns: Dr. Arthur Klatsky, Dr. Eric Rimm, Dr. Curtis Ellison, Dr. Michael S. Lauer, Drª. Susan M. Gapstur, Dr. Roger Corder, Dr. Luc Djoussé e Dr. Yuqing Zhang. De uma maneira geral todos eles dizem que esta questão, ao contrário de outras, não está clara e necessita de mais estudos. Acham que não é correto tirar conclusões e dar orientações baseadas em apenas um estudo. Poucos dias após a entrevista do Dr. Dominique Maraninchi foi publicado no Journal of the National Cancer Institute um dos mais importantes estudos feitos sobre esse assunto. A pesquisa coordenada pela Drª Naomi E. Allen da Unidade de Epidemiologia do Câncer da Universidade de Oxford avaliou 1.280.296 mulheres de meia idade do Reino Unido. Ela constatou que com uma ingesta média de 10 gramas por dia de álcool (o equivalente a 100 ml de vinho a 12,5% de álcool) havia uma incidência significativamente aumentada de câncer de laringe, boca, garganta, fígado, esôfago, mama e cólon e significativamente diminuída de câncer de rins, linfoma não- Hodgkin e de tireóide. Mas quando se analisou separadamente as mulheres que bebiam preferentemente vinho o que encontrou foi que para os cânceres de laringe, boca, garganta, fígado e esôfago houve apenas uma tendência, sem significância estatística. Já para o câncer de cólon houve uma tendência a proteção, mas também sem significância estatística.

Este estudo foi reconhecido pela comunidade científica como de grande valor, principalmente pelo tamanho da população estudada. Mas não ficou livre de críticas. Os principais pontos levantados são por ter sido feito apenas com mulheres; ser regional; ter considerado a média semanal de consumo de álcool. O padrão de consumo de álcool parece ser importante. Consumir 70 gramas de álcool em um único dia da semana deve ser diferente do que consumir 10 gramas diariamente. Os dados foram obtidos por entrevista e há uma tendência das pessoas informarem um consumo menor que o real. Não foram corrigidos os fatores de confusão. Por exemplo: o câncer de garganta só foi aumentado para as mulheres que também fumavam. Afinal é o álcool ou o fumo o Será publicado nos próximos dias um estudo feito na França(!), pelo Centro de Medicina Preventiva de Nancy – o COLOR (COhorte LORraine) Study. Nesse trabalho 98.063 pessoas (homens e mulheres) de idade entre 45 e 60 anos foram observados por 21 a 28 anos. Os dados foram analisados por um modelo de regressão logística e corrigidos para 12 fatores de confusão. A saber: idade, instrução, pressão arterial, colesterolemia, glicemia, hábito de fumar, índice de massa corpórea, atividade física, consumo de refrigerante, consumo de água, consumo de vinho e consumo de outras bebidas de álcool.

A conclusão a que chegaram é de que as pessoas que tinham preferência por vinho apresentavam um baixo risco de morte prematura por todas as causas, especialmente por câncer digestivo. Alguns dos componentes do vinho (resveratrol, quercitina, procianidina, etc.) têm mostrado um importante efeito anticancerígeno em pesquisas de laboratório. Há a expectativa de que esses efeitos ocorram in vivo. Vinho e câncer – com quem está a verdade? Aqui foram apresentados apenas alguns exemplos de estudos conflitantes recentemente realizados. Essa é definitivamente uma questão em aberto. Ainda serão necessários algum tempo e muitas pesquisas para termos a resposta clara e definitiva. Esse tipo de investigação é muito difícil porque envolve muitas variáveis e fatores de confusão. Fatores estes que podem ser ambientais e pessoais. A constituição gênica é única para cada indivíduo. Muito pouco, quase nada, sabemos da modulação gênica de todos os constituintes do vinho. É muito provável que pessoas diferentes respondam diferentemente à presença de uma mesma substância.

Ainda temos muito que aprender. Nesse assunto, tirar conclusões definitivas e dar orientações baseadas em apenas um estudo é no mínimo uma insensatez. Vinho, bebido de maneira responsável, não é medicamento. Tão pouco veneno. Ele é muito adequando para valorizar uma comida, uma conversa, uma companhia, um momento... E por isso ele é saudável, mesmo sem ser remédio.

Grata ao dr. Jairo Monson, pelo envio de texto especial.
Aos interessados nos trabalhos citados nesse artigo, solicitar.